Sobre os atributos de Deus

 1. A Confissão de Fé de Westminster (cap. II., art. I) afirma: ''Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e suas perfeições.''

2. Dentro da Teologia Sistemática, é habitual categorizar os atributos de Deus em dois esquemas: por um lado, teríamos aqueles atributos que Deus não compartilha com nenhuma criatura (chamados incomunicáveis); por outro lado, teríamos aqueles atributos que, sim, Deus os compartilha com outras criaturas, os chamados comunicáveis

3. A asseidade, a onipotência, a onisciência etc. são os atributos de Deus, ditos, incomunicáveis; já seu amor, sua pessoalidade, sua liberdade de agência etc. são aqueles nomeados comunicáveis

4. A onisciência, por exemplo, é conceituada como segeue: um determinado indivíduo possui a propriedade O (e.g onisciência) se, e somente se, P conhece todas as proposições verdadeiras e não crê em nenhuma proposição falsa, pois O é conceituado como a propriedade de conhecer todas as proposições verdadeiras e não acreditar em nenhuma proposição falsa. Neste sentido, somente Deus exemplifica O, pois seres limitados (e.g anjos, seres humanos etc) são também limitados com respeito ao conhecimento e, portanto, podem acreditar em uma dada proposição p e p ser uma proposição falsa. Neste caso, estes seres limitados não podem exemplificar o atributo O, pois são passíveis de crerem numa proposição falsa

5. Logo, somente um ser ilimitado pode exemplificar O, e este ser só poder ser Deus. Da mesma forma, a onipotência, a asseidade, dentre outras propriedades, são atributos que só podem ser exemplificados por um ser ilimitado e, por implicação, não podem ser exemplificados por nenhum ser limitado. Estas propriedades são, portanto, atributos incomunicáveis de um ser ilimitado, e este ser ilimitado é Deus

6. Considere, porém, o atributo da livre-agência - ou ''atributo de Deus ser tal que suas ações são livres''. Este atributo pode ser conceituado como a propriedade que um ser tem de ponderar as ações que virá realizar e as realizar de maneira livre - tomemos este conceito por demais problemático como correto

7. Obviamente, os seres humanos também partilham esta propriedade em algum sentido relativamente importante - e eu confesso isto ainda que seja de vertente calvinista. Parece-nos prima facie verdade que as ações que em breve realizaremos são tanto pensadas previamente por nós quanto realizadas por nós - escreverei como harmonizo esta visão com o Calvinismo em outra oportunidade

8. Logo, não é somente Deus quem possui aquela propriedade da livre-agência. Portanto, este atributo não é unicamente peculiar a Deus - ele é, assim, comunicável

9. Tenho alguns problemas com esta dicotomia. A livre-agência de Deus, por exemplo, não se parece nem de longe com nossa livre-agência. Embora sejamos, em um sentido importante, livres, ainda assim somos também movidos pelo pecado, de modo que nossa liberdade se fecharia no pecado - ainda que não quiséssemos pecar. Da mesma forma, a onisciência de Deus parece-me o mais perfeito grau de conhecimento, e não um atributo à parte, pois também podemos ter conhecimento - ainda que não como Deus. De modo que a onisciência não seria um atributo, a rigor, incomunicável de Deus, pois também teríamos um certo tipo de faculdade que poderia nos garantir o conhecimento de proposições verdadeiras

10. O que poderia ser feito aqui seria passar a encarar os atributos incomunicáveis de Deus  como o mais elevado grau de um atributo que poderia ser partilhado por seres-criaturais - embora estes teham um grau inferior àquele de Deus. Assim, não seria que somente Deus partilha de um tipo completamente sui generis de atributo - pois outros seres limitados também o partilhariam -, antes, Deus, ao contrário daqueles seres, deteria um grau infinitamente superior daquele mesmo atributo. Logo, os atributos incomunicáveis seriam, na verdade, comunicáveis. O amor, por exemplo, é um sentimento que tanto Deus como as criaturas limitadas podem partilhar entre si e, no entanto, o amor de Deus é de um grau infinito e inconcebivelmente superior ao amor daquelas criaturas. Confesso que também esta visão possui seus problemas, os quais serão discutidos em outra ocasião

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